segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

À MINHA VÓ EMOCY...

Pelas noites em que me senti segura...
Pelo colo que aparou minhas inúmeras lágrimas...

Pelo abraço que me confortou em face aos meus desenganos...

Pelo olhar que valeu mais que mil palavras...

Pela única certeza que eu tenho na vida, a de que o amor existe!

Os olhos são a janela da alma, disse o poeta. Hoje sei que são bem mais que isso. São também a porta, pois é através deles que ela, a alma, se vai.Foi aquele olhar, daquela tarde de domingo que ficou gravado na minha memória e hoje me faz pensar assim.Foram poucos os segundos em que manteve os olhos abertos.Fez que ia dizer alguma coisa, ou pelo menos tentou retribuir o meu "eu te amo".Arregalou bem os olhos e virou-se para mim....

Não foi preciso que dissesse nada,eu conhecia bem aquele olhar...azul de uma plenitude imensurável,profundo como as águas do mar que a nossa vista não alcança,carregado de tristezas de uma vida inteira, e cortante como uma navalha que dilacera a pele com um simples toque.Ah,como eu queria ter aproveitado aquele instante para dizer tudo o que sentia!No entanto não se fez necessário,pois senti que deixei transparecer nos olhos todo mar de sensações que me consumia.

Foi naquele momento, e não em outro, que a sua alma partiu, deixando para trás apenas um corpo inerte, que apesar de vivo não sentia mais nada.Quantas vezes aquele simples olhar foi o suficiente para satisfazer qualquer anseio, e me tomar de um sentimento inenarrável que não tornarei a sentir?Se vós acreditais que existem outros planos que não este, e outras dimensões que não esta, vos digo repleta  de certeza que não é desta vida que aquele olhar me acompanha.Eu sentia nele uma ternura, um porto seguro, um acalanto que nenhuma palavra ou abraço jamais pôde me dar. E deixei que fosse com ele parte de mim, que já não servirá mais aos que restaram nesta terra.

Lembrei-me de como fui feliz ao lado daquela criatura, revestida de bondade e doçura, agora já oculta pela palidez da sua face.De como era gratificante ter alguém que me entendia pelo simples fato de me amar e exteriorizar isso,muito embora não soubesse como e porquê, de como o sofrimento era bom por ter aquele abraço como consolo, e também de como seriam mecânicos os próximos sofrimentos, e de quão vazias seriam as palavras de consolo e coragem ditas dali em diante.

Sobretudo jamais me senti só, pois basta que eu feche os olhos para que as nossas almas se encontrem,estacionadas ali, naquele quarto, naquele instante. E a minha dor foi tanta, que chegou a ser física e se materializar em uma lágrima estranha as outras já derramadas.E um vazio tomou conta de tudo...Sentir-se vazio é diferente de se sentir só.A solidão é a ausência de amor, já o vazio é a ausência de algo necessário para nos deixar feliz.

Quantas pessoas acham que sabem a exatidão da palavra amor? O amor é tão nobre, que aquele que ama chega a abdicar desse sentimento para não ver quem se ama sofrer. E isso é ínfimo diante do que se sente.É tão difícil de se explicar quanto de se entender.Não existe egoísmo, não se quer nada em troca, sequer que seja recíproco. Abre-se mão de amar um corpo inválido estirado numa cama, para amar apenas as lembranças, e foi o que eu fiz.

Num último instante da minha fé, que tomada pela revolta já se esgarçava,  pedi ao Senhor que a levasse de mim para que eu ficasse apenas com as boas recordações e a saudade que já de véspera me castigava. Apenas nesse momento me senti inútil e fraca por não poder lhe aplacar a dor, nem sentir em seu lugar, nem fazê-la ficar nem juntar-me a ela. É certo porém, que todas as noites, em alguma estrela do céu, as nossas almas se cruzam. Pelas ruas apenas um corpo vazio  sem alma, luta para conquistar as riquezas materiais imprescindíveis da vida cotidiana.

A alma?Esta não pude impedir que a levasse com ela, para que embora não a toque eu possa senti-la em cada segundo da minha efêmera existência.À minha vovó Cici, que me ensinou tudo de amar e ser amada!


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